Sobre o Babalorixá

Daniel Cordó
Daniel Cordó é médium espiritualista desde os 12 anos, quando iniciou uma relação íntima e constante com o mundo espiritual, especialmente com seu guia e amigo, Bentinho, um espírito sábio, bem-humorado e profundamente lúcido, que se tornou seu companheiro inseparável na missão de traduzir os mistérios do invisível em sabedoria viva.
Desde cedo, Daniel aprendeu a escutar o silêncio das entrelinhas espirituais, dialogando com entidades amigas e explorando realidades sutis com naturalidade e profundidade. Sua jornada o levou a atravessar fronteiras internas e externas, buscando fundamentos espirituais que unissem saber, alma e serviço.
Estudou e vivenciou tradições ancestrais como as religiões de matriz africana (nações Efon e Ketú), o Xamanismo Inca nos Andes, e percorreu o Caminho de Santiago de Compostela, com passagens por Assis (Itália), além de vivências celtas e mágicas na Espanha, Inglaterra e Irlanda.
Autor de obras como Um Novo Olhar, Além do Olhar, Presença, Alfabetizando a Alma, entre outras, Daniel é o fundador do espaço Um Novo Olhar, dedicado ao autoconhecimento, à lucidez espiritual e à cura da alma, e conduz também o Ilê Asé Idí, casa de força e culto aos Orixás.
Suas palestras e atendimentos espirituais são verdadeiros encontros entre mundos, onde a presença de Bentinho, seu guia, se faz sentir de maneira viva e amorosa. Com seu jeito caipira-carioca, Bentinho une irreverência, sarcasmo e sabedoria ancestral para transmitir ensinamentos profundos com leveza e verdade.
Através dessa parceria mediúnica única, Daniel oferece não apenas conhecimento espiritual, mas também um caminho de reconexão com o sagrado acessível, direto e transformador.
Daniel Cordó é, antes de tudo, um peregrino da consciência, uma ponte entre mundos e um facilitador da verdade que liberta.
Minha trajetória no Candomblé
Há caminhos que escolhemos. E há caminhos que nos escolhem antes mesmo do nosso primeiro passo.
A minha história com o Candomblé não começou apenas no dia em que entrei para o santo. Ela começou muito antes, quando o Orí aceitou seu destino e os Orixás escreveram, em silêncio, aquilo que meus olhos ainda não podiam compreender.
Foi no Ilê Asé Kemi, sob as mãos sagradas do Babalorixá João Carlos de Jagun, (in Memorian) da tradicional raiz de Efan, que minha vida ganhou um novo nascimento.
No dia 24 de julho de 1998, recebi meu primeiro Bori. Naquele momento, alimentava-se não apenas minha cabeça, mas também meu destino. Era o início de uma aliança eterna entre meu Orí, meus ancestrais e os Orixás.
Ainda muito jovem, aos 15 anos de idade, no dia 6 de setembro de 1999, entreguei meu corpo, minha alma e meu coração ao recolhimento. Foram dias de profundo silêncio, aprendizado e transformação. Em 26 de setembro de 1999, minha saída de Orunkó. Eu já não era apenas um adolescente. Eu havia renascido para uma missão maior do que eu mesmo.
Em 15 de setembro de 2000, veio a confirmação de um ano. Mais do que cumprir uma obrigação, era a certeza de que cada folha, cada reza, cada ensinamento e cada sacrifício estavam moldando não apenas um sacerdote, mas um ser humano.
Então chegou um dos dias mais marcantes da minha existência.
No dia 24 de dezembro de 2001, recebi a chave do meu primeiro terreiro. Uma simples chave de metal que, para mim, sempre significou muito mais: a responsabilidade de abrir um caminho para que outras pessoas encontrassem acolhimento, fé, esperança e transformação.
Poucos dias depois, em 19 de janeiro de 2002, ao lado dos meus irmãos de santo mais velhos, realizamos a primeira Gira de Umbanda. Ali começava oficialmente uma história de portas abertas, de mãos estendidas e de incontáveis vidas tocadas pela espiritualidade.
O tempo passou como passam as águas de um rio: sempre seguindo em frente, mas jamais esquecendo sua nascente.
Em 22 de outubro de 2004, completei meus cinco anos de iniciação. Em 16 de setembro de 2006, recebi meu Odun Ijé, mais um marco na caminhada espiritual, lembrando que no Candomblé nunca se chega ao fim; apenas se alcançam novos começos.
A vida ainda me reservava um grande presente.
No dia 12 de maio de 2007, chegou aquele que se tornaria muito mais do que um sacerdote em minha vida: meu grande pai, amigo e referência, Pai Cido de Oxalá ( In Memorian). Sua presença fortaleceu meus passos, ampliou meus horizontes e reafirmou que ninguém caminha sozinho dentro da tradição.
Com ele vivi momentos inesquecíveis.
Recebi meus 10 anos em 6 de março de 2009 e, muitos anos depois, meus 14 anos, em setembro de 2022, reafirmando que o tempo apenas aprofunda aquilo que o amor pelo Orixá construiu desde o primeiro dia.
Mas a ancestralidade ainda escreveria outro capítulo memorável.
Em 5 de junho de 2021, reinaugurei minha casa em solo ancestral, na Rua Catuquina, 260. Mais do que uma mudança de endereço, aquele momento simbolizou o reencontro entre passado, presente e futuro. Cada parede erguida, cada assentamento firmado, cada folha colhida e cada toque dos atabaques reafirmaram que aquela casa não pertence apenas a mim. Ela pertence aos Orixás, aos meus ancestrais, aos meus filhos de santo e a todos aqueles que buscam ali conforto para a alma.
Até hoje seguimos cultuando os Orixás com respeito, amor e fidelidade às tradições que recebi dos meus mais velhos.
Ao olhar para trás, não vejo apenas datas.
Vejo mãos que me levantaram quando pensei em desistir.
Vejo os olhos emocionados dos meus pais de santo.
Vejo irmãos que dividiram lágrimas e sorrisos.
Vejo o cheiro do amassi, o frescor das folhas, o som dos atabaques ecoando como o próprio coração da ancestralidade.
Vejo cada filho de santo que chegou procurando respostas e encontrou família.
E compreendo que o verdadeiro tempo do Candomblé não é contado em anos de santo.
É contado em vidas transformadas.
Hoje, depois de tantos ciclos, continuo sendo aquele jovem que um dia entrou para o roncó disposto a aprender. A diferença é que, agora, carrego comigo a responsabilidade de ensinar, acolher e preservar um legado que não me pertence. Um legado recebido dos meus ancestrais para que jamais se perca.
Que meus passos continuem sendo guiados pelo meu Orí.
Que os Orixás nunca permitam que a vaidade fale mais alto que a humildade.
Que eu jamais esqueça de onde vim.
E que, quando meu nome for lembrado pelas futuras gerações, não seja pelo que construí com minhas próprias mãos, mas pelo amor, pela fé e pelo respeito com que servi ao sagrado.
Axé hoje. Axé amanhã. Axé enquanto houver folhas, tambores, ancestrais e corações dispostos a manter viva a chama dos Orixás.
